O QUE COMEMORAR NO DIA 5 DE JUNHO?
07/06/2010 - Rodrigo Castro, Secretário Executivo da Associação Caatinga Artigo publicado no caderno Opinião do Jornal O Povo no dia 05/06/10
Seríamos taxados de céticos ou até cínicos se não reconhecêssemos os grandes avanços ocorridos na área ambiental nos últimos 30 anos. Hoje pelo menos já se fala em meio ambiente. E não é pouco. Muita coisa mudou e sim, mudou para melhor. A consciência ambiental, leia-se, ampliação da nossa sensibilidade e capacidade de entender o homem como parte de algo bem maior e mais complexo, sem dúvida avançou. Separamos o lixo, utilizamos mais transporte público, onde isso é possível, reduzimos o consumo de energia e água e nos gabamos por sermos cidadãos que vivem à altura do seu tempo. Ser atual ou moderno é ter atitudes ambientalmente corretas, pois afinal de contas ninguém gosta de ser taxado de antiquado ou pior, ultrapassado. Está na moda fazer algo pelo meio ambiente, mesmo que seja somente algo pelo meio, ou melhor, pela metade. Nossas atitudes ambientais no dia a dia são contraditórias. Encho o peito na conversa de porta com o vizinho sobre a redução da minha conta de energia, só que ao mesmo tempo tomo banhos demorados e só desligo o chuveiro no final. Digo para o colega de trabalho que reutilizo a folha de papel usada como rascunho e por outro lado exagero na churrascaria no mesmo dia. Você sabe quantos litros de água são necessários para produzir um quilo de carne? Quantos hectares de matas nativas tem que ser derrubadas para produzir o carvão e o pasto para o boi engordar? São 100 litros de água para produzir 1 kilo de carne e 1 hectare para cada boi. Quanto ao carvão, não temos dados, mas é um dos vilões do desmatamento. Você sabia que o Ceará foi nos últimos seis anos campeão do desmatamento na Caatinga? Em nenhum lugar a florestas está desaparecendo tão depressa como aqui. Essa mesma mata que desaparece diante dos nossos olhos, não é bem diante, afinal já vivemos bem longe delas, mas mesmo não as vendo, elas desaparecem a cada dia deixando de prestar serviços tão essenciais para a nossa vida como a regulação do clima, atração das chuvas, combate a desertificação, abastecimento de água que sai todos os dias nas nossas torneiras. De onde vem mesmo essa água? As matas abrigam insetos tão vitais na produção dos nossos alimentos, pois são eles, afinal, que garantem a polinização das plantas que comemos. Se soubéssemos como as matas são importantes em tudo nas nossas vidas... Ao adentrar a uma floresta, seja na Caatinga ou na Amazônia, sentimos o silêncio, o frescor, o cheiro e a paz, estamos conectando com o nosso passado, com a nossa memória genética. Sentimos tanto bem-estar porque um dia saímos da floresta, fomos povo da floresta. Que saudade! Nas cidades é difícil perceber o valor da floresta. O fato é que estamos nos tornando os sem-florestas do século 21. O que precisamos mudar ou podemos mudar? Quase tudo. Que tal começarmos por rever aquilo que consumimos e nem precisamos. Que tal darmos uma pitada de coerência às nossas escolhas na hora da compra. Que tal buscarmos e repassarmos informações para que o conhecimento nos leve a decisões mais inteligentes. Lamento, não estar transmitindo um espírito de festa nesta data comemorativa. Acho que a festa só vai começar quando todos os convidados perceberem que podem fazer algo concreto por este mundo. Que tal acordar amanhã com o pé direito e dar o seu primeiro passo? |