Conheça os impactos das queimadas e dos incêndios na Caatinga
destaque-caatinga-vale-mais-em-pe_queimada_no-clima-da-caatinga

Imagine o seguinte cenário: um mundo sem Caatinga, um Brasil onde todas as florestas do semiárido foram substituídas por áreas desertificadas, queimadas e pobres. Um cenário onde não há vida silvestre. Nada de onças, tatu-bolas, abelhas ou qualquer outro tipo de animal ou planta. Consegue ver a cena? É desolador, não é mesmo?

Por enquanto, essa assustadora imagem fica apenas para os filmes apocalípticos. A Caatinga ainda é uma floresta cheia de cor, belezas, texturas e cheiros; um local onde a biodiversidade pulsa, praticamente salta aos olhos. Mas temos que admitir; de vez em quando bate aquela preocupação: “e se tudo isso acabar e não sobrar mais nada? Como a gente fica?” 

Por isso, te convidamos a conhecer a campanha “Caatinga em Pé”, uma iniciativa do projeto No Clima da Caatinga (NCC) que busca alertar a população sobre a degradação do semiárido a partir de quatro fatores: queimadas, caça, desmatamento e extinção. 

A cada semana, a equipe do NCC vai apresentar, através das redes sociais, um dos fatores degradantes. O intuito da campanha é, segundo Kelly Cristina, coordenadora de comunicação do projeto, “alertar a população sobre os danos que todos esses fatores trazem para a Caatinga e para nós. Quando falamos de incêndios, desmatamentos, caça e extinção, para muitos parece algo distante, mas, na verdade, os danos estão para além disso”.

A Caatinga vale mais em pé do que queimada

As queimadas na Caatinga tiveram um considerável aumento em 2021. Entre janeiro e setembro deste ano, o fogo atingiu 22.282 quilômetros quadrados de vegetação. O aumento foi de 186,5% em relação ao mesmo período de 2020. Em números comparativos, a área queimada equivale a 2.700.848 campos de futebol. Os dados são do “Programa Queimadas”, portal criado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) para agregar pesquisas, desenvolvimentos tecnológicos e divulgações científicas sobre o tema.

Os focos de queimadas estão concentrados no oeste do bioma, principalmente nos estados do Piauí e da Bahia, ou seja, áreas onde a Caatinga se encontra com o bioma Cerrado. A disparada acontece em um período marcado pela falta de chuva, tempo seco e fortes ventos, entre junho e outubro, quando, naturalmente, as condições climáticas favorecem o surgimento de focos de incêndios, que podem surgir de causas naturais ou por intervenções humanas

Entretanto, o aumento de queimadas neste ano supera as expectativas pessimistas sobre o bioma e carimba uma época de incertezas e degradação, onde o fogo avança a passos largos contra enormes pedaços de vegetação semiárida. Enquanto isso, a impressão que fica é que nós, enquanto sociedade, observamos atônitos a destruição do único bioma exclusivamente brasileiro.

No âmbito nacional, a situação não é mais animadora: Segundo dados do INPE, no Brasil, assim como na América do Sul, a maioria esmagadora das queimadas e dos incêndios florestais é causada a partir de ações humanas: limpeza de pastos, preparo de plantios, desmatamentos, vandalismo, balões, disputas fundiárias e etc. Com mais de 300.000 focos de incêndios e nuvens de fumaça cobrindo milhões de km², o Brasil ocupa o 5º lugar mundial entre os países poluidores. 

Por que isso acontece?

Em 1820, o naturalista e poeta brasileiro José Bonifácio de Andrada e Silva resumiu as razões para os incêndios brasileiros: “ignorância associada à preguiça e má fé”. Apesar de secular, a resposta encaixa-se perfeitamente nos dias de hoje.

É sabido que existem dois tipos de incêndios: os naturais e os antrópicos, ou seja, aqueles que são causados por ação humana. Este último tipo, em muitos casos, surge em áreas agrícolas, cresce de forma descontrolada e avança contra Unidades de Conservação, áreas indígenas, comunidades rurais e etc. 

Assim sendo, é possível verificar a ineficiência brasileira em prevenir e combater incêndios: falta fiscalização, ações públicas, sensibilização popular e educação ambiental.  A sensação é de que o crescimento recorde das médias anuais de queimadas no semiárido tornou-se algo normal, uma situação banal que não choca, um mal que não pode ser remediado. 

Manter a Caatinga em pé não mais parece um objetivo a ser alcançado pois, nesse ritmo, o que hoje ainda é uma floresta cheia de biodiversidade, cores e texturas, aos poucos, torna-se um amontoado de cinzas, troncos queimados e vidas interrompidas

Quais são os impactos das queimadas e dos incêndios?

As queimadas descontroladas e os incêndios florestais estimulam, de forma direta, as mudanças climáticas. No âmbito local, o fogo mata a fauna e a flora, empobrece o solo e, em inúmeros casos, causa acidentes e perdas de propriedades públicas e privadas. No contexto regional, altera e destrói ecossistemas inteiros. Já na perspectiva mundial, as queimadas e os incêndios causam prejuízos à composição química da atmosfera e contribuem para a elevação da temperatura ao redor da Terra.

A redução da umidade do ar e o crescimento de índices de doenças respiratórias também estão relacionados ao aumento dos focos de incêndio na Caatinga. Além disso, o fogo descontrolado coloca em xeque a segurança alimentar de comunidades rurais do semiárido, visto que queimadas podem se alastrar e destruir áreas de agricultura familiar.

Quanto maior os índices de focos de incêndio na Caatinga, maior é a recorrência do ciclo negativo de queimadas e avanço das mudanças climáticas. 

Entenda a diferença entre queimadas e incêndios florestais

Queimadas 

É o uso do fogo de forma consciente, principalmente para queimas de roças e áreas de plantio. No uso popular, a queimada ainda é uma técnica comum entre agricultores, principalmente aqueles de baixa renda. Isso acontece porque a incineração da vegetação traz, em curto prazo, a sensação de “limpeza” da área de forma acessível e de baixo custo, mas, em longo prazo, os resultados não são nada satisfatórios.

A técnica é controversa e traz uma série de danos ao meio ambiente. O fogo dá o pontapé inicial no processo de erosão e degradação do solo, a umidade se esvai e a terra fica compactada, ou seja, pobre. Além disso, a prática destrói nutrientes fundamentais para as plantas, como potássio, nitrogênio e fósforo. E quando saem do controle, tornam-se incêndios florestais.

Incêndio florestal

É todo fogo fora de controle que atinge áreas de vegetação. É principalmente provocado pelos humanos (de forma criminosa ou por negligência), mas também pode ter origens naturais (raios). Além de queimar a vegetação nativa e de agricultores, os incêndios florestais podem queimar lavouras, pastos, áreas naturais, casas e instalações rurais.

Benefícios da Caatinga em pé para a vida da sociedade

Frequentemente recai sobre a Caatinga o estereótipo de uma região seca, pobre e de baixa biodiversidade, onde reina a fome e a desesperança. Mas, na realidade, o quadro é outro.

A Caatinga é o bioma semiárido mais biodiverso do mundo. Com quase 850 mil km²  (11% da extensão do Brasil), todas as fronteiras da “Mata Branca” encontram-se dentro do território nacional, ou seja, o patrimônio biológico do semiárido brasileiro não pode ser encontrado em nenhuma outra região do mundo, apenas aqui.

Por isso, conservar a Caatinga é uma forma de proteger valores biológicos, e também econômicos, únicos e endêmicos. Dito isso, manter a Caatinga em pé evita a emissão de gás carbônico (CO²) para a atmosfera e o reflorestamento de áreas degradadas tem alto potencial para o sequestro e a fixação de carbono, o que diminui o efeito estufa e reduz as consequências do aquecimento global. Além disso, a conservação do semiárido traz benefícios ambientais, como a conservação das águas, dos solos, da fauna e da flora nordestina.

Também vale ressaltar que no Nordeste, a grande maioria da população do campo trabalha com extrativismo, culturas de subsistência e pecuária. Por consequência, o equilíbrio entre conservação ambiental, desenvolvimento econômico sustentável e geração de renda é fundamental para garantir o bem estar e a permanência das comunidades rurais e dos povos originários do bioma.

Ademais, a Caatinga é o bioma brasileiro de mais difícil restauração, devido a irregularidade das chuvas e dos níveis de aridez solo. Em outras palavras, reflorestar a Caatinga representa um grande desafio social, científico e tecnológico. 

Por esses e outros motivos, manter a Caatinga em pé e longe do fogo é um dos objetivos do No Clima da Caatinga, projeto realizado pela Associação Caatinga (AC) por meio do Programa Petrobras Socioambiental. O projeto atua na Reserva Natural Serra das Almas (RNSA), uma Unidade de Conservação da categoria Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN).

Localizada entre os municípios de Crateús (CE) e Buriti dos Montes (PI) a área possui 6285 hectares de extensão e resguarda três nascentes e espécies ameaçadas de extinção, tanto de fauna quanto da flora. Por abrigar uma representativa área de Caatinga preservada e pela interação da AC com as comunidades rurais que estão no entorno do local, a RNSA é reconhecida pela Unesco como Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Caatinga. 

Diante dessa realidade, o projeto No Clima da Caatinga promove cursos gratuitos para brigadistas, doações de equipamentos para combates de incêndios e a construção de aceiros (faixas desbastadas de áreas florestais para impedir a propagação do fogo). Além disso, a equipe do NCC também realiza atividades de educação ambiental para sensibilizar a população rural e urbana quanto aos malefícios das queimadas e dos incêndios florestais.

Para quem ligar em situação de incêndio ou queimada?

Ao avistar fogo em mata nativa é possível ligar para inúmeros órgãos públicos e realizar uma denúncia: Bombeiros, Secretaria Estadual do Meio Ambiente, IBAMA, Prefeitura e PrevFogo.