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Falar de saúde no semiárido é, também, falar de território, de cotidiano e de gente. É no diálogo entre saberes, experiências e realidades locais que surgem caminhos possíveis para enfrentar desafios antigos e urgentes, como as doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti (dengue, zika, chikungunya e febre amarela). Não por acaso, iniciativas que apostam na escuta, na educação e na mobilização comunitária têm alcançado resultados concretos em diferentes partes do mundo.

Criada pela organização argentina EDUPAS, com o apoio da SC Johnson, a campanha Adeus Mosquito atua para sensibilizar a população sobre a prevenção dessas doenças. Na América Latina, a iniciativa já impactou mais de 2 milhões de famílias em países como Argentina, Brasil, Colômbia, México, Peru, Uruguai e Paraguai, com a distribuição de mais de 1 milhão de repelentes. É a partir dessa trajetória que a campanha chega ao semiárido brasileiro, conectando saúde pública, educação ambiental e participação social.

Realizadas em Crateús (CE) e Buriti dos Montes (PI), as oficinas conduzidas pela equipe da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), em parceria com a Associação Caatinga, marcam a chegada da campanha ao território. O foco está na formação de multiplicadores para a prevenção dessas doenças, sempre a partir da realidade vivida pelas comunidades.

Inspirada na pedagogia de Paulo Freire, a metodologia da campanha parte do princípio de que ninguém educa ninguém sozinho e de que o conhecimento não se impõe. Ao contrário, constrói-se no encontro, na troca e na valorização dos saberes locais. Assim, o processo educativo reconhece cada participante como sujeito do aprendizado e protagonista das transformações em seu território.

Lideranças comunitárias, profissionais da saúde, da educação e do meio ambiente participaram das oficinas e firmaram o compromisso de levar as ações para suas comunidades. Ao final das atividades, os participantes receberam kits com materiais educativos e institucionais, que apoiam a multiplicação da campanha e fortalecem o trabalho coletivo nos territórios.

Assim, nesta edição, o Papo Caatingueiro apresenta as ideias e os caminhos da campanha Adeus Mosquito a partir da experiência e do olhar de Mickela Souza, representante da Fundação Amazônia Sustentável. A conversa destaca a educação popular, a integração entre saúde e ambiente e a troca entre Amazônia e Caatinga como bases para a construção de soluções coletivas, contextualizadas e sustentáveis no enfrentamento dessas doenças.

Mickela Souza, representante da Fundação Amazônia Sustentável.

Associação Caatinga: Mickela, para começar, você pode nos contar sobre a atuação da Fundação Amazônia Sustentável e como a instituição se insere na missão de promover o desenvolvimento sustentável no Brasil?

Mickela Souza: A Fundação Amazônia Sustentável é uma organização da sociedade civil que, há 17 anos, atua pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia. Nossa missão é contribuir para a conservação do bioma, melhorar a qualidade de vida das populações amazônicas e valorizar a floresta em pé e sua biodiversidade. Ao longo desse período, em áreas onde atuamos, registramos um aumento de mais de 200% na renda média de milhares de famílias e uma queda significativa no desmatamento, o que mostra que é possível conciliar proteção da floresta com geração de renda. Quando falamos de desenvolvimento sustentável no Brasil, a Amazônia tem um papel central, e buscamos sempre partir do território: da saúde, da educação, da geração de renda e da organização comunitária.

Associação Caatinga: Como surgiu a relação entre a campanha Adeus Mosquito e a FAS, e de que forma essa parceria se conecta com o trabalho que a instituição já desenvolve em saúde, fortalecimento comunitário e natureza?

Mickela Souza: A campanha Adeus Mosquito foi criada pela organização internacional EDUPAS, em 2016, na Argentina, e desde então já impactou mais de 2 milhões de famílias na América Latina, com o apoio da SC Johnson. Em 2024, quando a SC Johnson decidiu lançar a campanha no Brasil, a FAS foi convidada para implementar as ações em Manaus, justamente pela nossa trajetória em saúde coletiva, mobilização comunitária e conservação ambiental na Amazônia.

A campanha se conecta diretamente ao que já fazemos no Programa Saúde na Floresta: trabalhar a saúde como parte do bem viver no território, integrando prevenção de doenças, educação popular e cuidado com o ambiente. Ao formar multiplicadores, apoiar o SUS e envolver lideranças comunitárias, a campanha fortalece redes de cuidado que já existem na floresta e amplia nossa capacidade de proteger as pessoas e, ao mesmo tempo, o território onde elas vivem.

A meta é repassar conteúdo técnico e fortalecer uma rede de corresponsabilidade. O mosquito não respeita muros nem fronteiras; por isso, a prevenção precisa ser coletiva, contínua e baseada na realidade de cada território.

Associação Caatinga: Qual é o principal objetivo da campanha no Brasil?

Mickela Souza: O principal objetivo da campanha Adeus Mosquito no Brasil é transformar informação em ação cotidiana para prevenir doenças transmitidas por mosquitos, como dengue, zika, chikungunya, febre amarela e, agora, também a malária. Isso acontece por meio da formação de multiplicadores — profissionais de saúde, educadores, lideranças comunitárias e juventudes — que levam esse conhecimento para dentro das casas, das escolas e das unidades básicas de saúde.

A meta é repassar conteúdo técnico e fortalecer uma rede de corresponsabilidade. O mosquito não respeita muros nem fronteiras; por isso, a prevenção precisa ser coletiva, contínua e baseada na realidade de cada território. A expectativa é alcançar diretamente dezenas de milhares de famílias, começando por Manaus e expandindo para outros contextos urbanos e rurais do país.

Associação Caatinga: Quais ações práticas estão sendo realizadas e como essas ações têm sido recebidas pelas comunidades locais?

Mickela Souza: Na prática, a campanha acontece por meio de formações presenciais e oficinas que combinam conhecimento científico com metodologias participativas. Em Manaus, por exemplo, realizamos formações com equipes da Secretaria Municipal de Saúde, da Fundação de Vigilância em Saúde, estudantes e preceptores de Medicina da Universidade Federal do Amazonas. Trabalhamos com jogos, dramatizações, materiais educativos, planejamento de visitas domiciliares e construção coletiva de planos de ação nos territórios.

Ao longo do último ano, mais de 250 participantes foram capacitados em metodologias de educação popular e comunicação comunitária. Hoje, os materiais da campanha já são utilizados em Manaus, Crateús (CE) e Buriti dos Montes (PI). A receptividade tem sido muito positiva: as pessoas se envolvem, trazem exemplos do dia a dia, tiram dúvidas e saem comprometidas em replicar o que aprenderam nas comunidades. Isso mostra que, quando a linguagem é simples e respeita a realidade local, a prevenção ganha força.

Associação Caatinga: A campanha foca no combate ao Aedes aegypti, mas também traz uma dimensão ambiental importante. De que forma esses dois temas se conectam?

Mickela Souza: Saúde e ambiente caminham juntos. O Aedes aegypti se prolifera em ambientes com acúmulo de água parada, falta de saneamento e manejo inadequado de resíduos, ou seja, em territórios onde o desequilíbrio ambiental está presente. O mesmo vale para a malária, muito relacionada a áreas ribeirinhas e rurais, com casas próximas a igarapés e lagos, deslocamentos constantes e dificuldade de acesso ao diagnóstico e ao tratamento.

Quando falamos em combater o mosquito, não tratamos apenas de um inseto, mas do cuidado com o território: como armazenamos água, como lidamos com o lixo, como preservamos áreas de floresta e cursos d’água. A campanha traz essa visão integrada, ao mostrar que proteger a natureza e organizar o espaço onde vivemos também é uma forma de prevenir doenças e garantir o direito à saúde.

Também reforçamos a importância de manter a floresta e as áreas verdes saudáveis, porque o desequilíbrio ambiental e o desmatamento intensificam eventos extremos, alteram o ciclo das águas e influenciam a dinâmica de diversas doenças.

Associação Caatinga: Em muitos territórios, o desequilíbrio ambiental, como o desmatamento e o acúmulo de lixo, favorece a proliferação do Aedes aegypti. Como a FAS tem trabalhado essa sensibilização ambiental com as comunidades?

Mickela Souza: Na FAS, a conversa sobre o mosquito sempre vem junto com a conversa sobre o território. Nas formações da campanha Adeus Mosquito, trabalhamos com mapas de risco construídos pelas próprias comunidades, que identificam pontos de acúmulo de lixo, áreas com água parada, terrenos abandonados e locais que podem se tornar criadouros.

Também reforçamos a importância de manter a floresta e as áreas verdes saudáveis, porque o desequilíbrio ambiental e o desmatamento intensificam eventos extremos, alteram o ciclo das águas e influenciam a dinâmica de diversas doenças. Ao tratar de lixo, saneamento, armazenamento de água e conservação ambiental, mostramos que cuidar do ambiente é cuidar da saúde e que cada pessoa tem um papel nesse processo.

Associação Caatinga: Essa é uma campanha coordenada pela EDUPAS e apoiada pela SC Johnson. Como essa colaboração internacional tem fortalecido as ações realizadas na Amazônia e, agora, na Caatinga?

Mickela Souza: A colaboração com a EDUPAS e a SC Johnson é fundamental para que possamos atuar com consistência e escala. A EDUPAS traz a experiência acumulada desde 2016, com uma metodologia testada em diferentes países da América Latina, materiais pedagógicos de qualidade e uma visão forte de educação popular em saúde. A SC Johnson garante o apoio financeiro e institucional que permite produzir materiais, formar equipes e chegar a milhares de famílias.

Na Amazônia, essa parceria viabilizou formações em Manaus e a construção de uma rede que envolve Secretaria de Saúde, Fundação de Vigilância em Saúde, Universidade Federal do Amazonas, organizações da sociedade civil e lideranças comunitárias. A mesma estrutura está sendo adaptada para a Caatinga, com a Associação Caatinga assumindo a mobilização local. Isso fortalece as ações porque cria uma campanha nacional, com base metodológica comum, mas respeitando as especificidades de cada bioma.

Associação Caatinga: A parceria entre a FAS e a SC Johnson também foi ampliada para o semiárido nordestino, por meio da Associação Caatinga. Como está sendo essa experiência de trabalhar em conjunto com uma instituição de outro bioma?

Mickela Souza: Tem sido uma experiência muito rica. Em Crateús (CE) e Buriti dos Montes (PI), realizamos oficinas com profissionais da saúde, da educação, da vigilância ambiental, representantes do meio ambiente e lideranças locais, sempre em articulação com a Associação Caatinga. Nós chegamos com a metodologia da campanha e com a vivência da Amazônia, e a Associação traz o conhecimento profundo do semiárido, das comunidades e dos desafios do território.

Apesar das diferenças entre a floresta amazônica e a Caatinga, encontramos muitos pontos em comum: desigualdades no acesso à saúde, falta de saneamento, mudanças climáticas afetando o dia a dia das famílias e a presença do Aedes aegypti como ameaça constante. Trabalhar com uma instituição de outro bioma ajuda a construir soluções mais completas, respeitosas e conectadas com a diversidade do Brasil.

Do ponto de vista qualitativo, percebemos uma mudança importante: as pessoas passam a se enxergar como parte da solução, questionam fake news, reconhecem melhor os criadouros e entendem a importância do diagnóstico rápido e do tratamento completo.

Associação Caatinga: Quais resultados já podem ser observados desde o início da campanha na Amazônia, especialmente em termos de mobilização e conscientização comunitária?

Mickela Souza: Desde o lançamento da Adeus Mosquito em Manaus, em 2024, já formamos mais de 250 multiplicadores e multiplicadoras em diferentes espaços, envolvendo servidores da Secretaria Municipal de Saúde, equipes da Fundação de Vigilância em Saúde, estudantes e preceptores da UFAM, voluntários da Cruz Vermelha e parceiros como a Associação Caatinga e a Rede Unida. Esses grupos já replicam as ações em unidades de saúde, escolas e comunidades, com planos de ação específicos para seus territórios.

Do ponto de vista qualitativo, percebemos uma mudança importante: as pessoas passam a se enxergar como parte da solução, questionam fake news, reconhecem melhor os criadouros e entendem a importância do diagnóstico rápido e do tratamento completo. Com a chegada do novo módulo de malária, que inicia as formações no primeiro trimestre de 2026, nossa perspectiva é aprofundar essa mobilização, engajando ainda mais agentes de saúde, educadores e lideranças locais para reduzir a incidência da doença e fortalecer o cuidado comunitário na Amazônia.