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Na Reserva Natural Serra das Almas, no coração da Caatinga, na divisa entre Crateús (CE) e Buriti dos Montes (PI), o dia começa cedo. Antes mesmo de o sol se firmar no céu, os bandos de periquitos cara-suja já dão os primeiros sinais de movimento: deixam os ninhos, iniciam os voos e seguem em busca de alimento.

É nesse horário, quando a paisagem ainda está silenciosa, que olhos atentos registram comportamentos, rotas e interações das aves. Trata-se do olhar de Ariane Ferreira, bióloga e analista de projetos socioambientais da Associação Caatinga, que há cerca de sete meses acompanha, de perto, o projeto de reintrodução do periquito cara-suja na Serra das Almas, unidade de conservação de 6.285 hectares gerida pela instituição.

Espécie símbolo da conservação no Ceará, o periquito cara-suja voltou a ser registrado na Serra das Almas após mais de 114 anos sem presença confirmada na região. Desde a primeira soltura, realizada em dezembro de 2024, dezenas de indivíduos já sobrevoam a área, resultado de um projeto que exige monitoramento contínuo e atenção permanente aos detalhes do território.

O trabalho de Ariane envolve observar a interação entre as aves, identificar áreas de uso, compreender rotinas de alimentação e padrões de deslocamento. Entretanto, o protagonismo é compartilhado, a bióloga faz questão de ressaltar que esse acompanhamento não é feito de forma individual. 

O monitoramento dos bandos é realizado em conjunto com a equipe de guarda-parques da Serra das Almas, profissionais que conhecem profundamente o território e atuam diariamente na coleta de informações em campo.

“Esse trabalho não é solitário. A gente constrói esse trabalho juntos, na observação compartilhada e no acompanhamento dos cara-suja”, explica.

Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência

A história de Ariane ganha destaque neste 11 de fevereiro, Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, data que nos convida a olhar para trajetórias reais de mulheres que constroem conhecimento científico em diferentes frentes, do laboratório à floresta. No caso de Ariane, a ciência se manifesta no seu amor pelas aves e no olhar atento que acompanha os voos dos periquitos cara-suja na Serra das Almas.

A relação de Ariane com a Caatinga, no entanto, é relativamente recente. Natural de São José, município da região metropolitana de Florianópolis (SC), ela cresceu tendo contato com a natureza e desenvolveu, desde cedo, o interesse pelos animais. “Eu sempre gostei muito de bicho. Queria cuidar, proteger, mesmo sem saber exatamente como isso viraria uma profissão”, lembra.

Nesse percurso, duas mulheres tiveram papel fundamental. A tia Cláudia, que, ainda quando Ariane tinha 12 anos de idade, já a incentivava a ser bióloga, enxergando ali um caminho possível para a sobrinha. E a professora Renata, do cursinho pré-vestibular, cuja forma de ensinar Biologia abriu novas possibilidades. “A maneira como ela falava da Biologia me fez perceber que aquilo podia ser mais do que matéria de prova, podia ser um caminho”, conta Ariane.

Eu sempre gostei muito de bicho. Queria cuidar, proteger, mesmo sem saber exatamente como isso viraria uma profissão.

Decidida, Ariane iniciou a graduação em Biologia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), enfrentando dúvidas, tentativas e mudanças de rota comuns a quem ainda está se descobrindo profissionalmente. Mas foi durante as atividades práticas da formação — em pesquisas, monitoramentos e saídas a campo — que Ariane começou, de fato, a se encontrar na profissão. 

A aproximação com as aves aconteceu a partir de uma atividade voluntária de apoio ao TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) de uma colega de graduação, experiência que despertou, no coração de Ariane, um interesse mais profundo pela ornitologia (área da Biologia dedicada ao estudo das aves). “Foi ali, apoiando o TCC de uma colega, que eu comecei a me aproximar das aves de verdade, e aquilo me deu força para continuar a faculdade e seguir”, relembra.

Ciência feita em equipe

Esse caminho ganhou novos contornos quando Ariane foi convidada para trabalhar em Curaçá, na Bahia, em um projeto ligado à reintrodução da ararinha-azul, espécie que permaneceu cerca de 20 anos extinta na natureza. 

Além do trabalho técnico com a ave, Ariane coordenou equipes formadas por moradores da comunidade local, responsáveis por apoiar o monitoramento e a proteção da área. O trabalho em parceria com a comunidade foi uma experiência marcante para a catarinense. “O convívio com o povo nordestino, mais próximo, mais acolhedor, foi mudando meu jeito de trabalhar e de me relacionar. Aprendi muito ali”, afirma, destacando que essa troca foi essencial para sua formação profissional e, principalmente, pessoal.

Depois dessa experiência, o Nordeste deixou de ser passagem. A chegada à Serra das Almas veio na sequência, já com um olhar mais atento às dinâmicas do território. Seu primeiro contato com a equipe da Associação Caatinga aconteceu em 2024 quando Ariane participou do censo do periquito cara-suja na Serra de Baturité, atividade que marcou seu primeiro contato direto com a espécie. A experiência foi decisiva para consolidar sua aproximação com o cara-suja e abrir caminho para o trabalho que hoje desenvolve na Serra das Almas.

A mulher na ciência

Para Ariane, a atuação de mulheres na ciência, especialmente em atividades de campo, envolve desafios específicos, como deslocamentos frequentes, longas jornadas e trabalho em áreas remotas. Ao abordar o tema, ela prefere destacar o apoio coletivo e a construção conjunta do trabalho entre mulheres. “A gente não faz ciência sozinha. É na troca, no cuidado e no trabalho em equipe que as coisas acontecem”, pontua.

Quando questionada sobre o que diria a uma menina que sonha em seguir a ciência, mas sente medo, Ariane é direta: 

O medo existe, mas não pode paralisar. Converse com outras mulheres, procure apoio e não desista. É isso que faz diferença. A ciência também é um espaço nosso.

Neste Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, a trajetória de Ariane Ferreira mostra que fazer ciência é um processo construído como um bando: ninguém voa sozinha. Porque assim como os cara-suja, que voltaram a cruzar os céus da Serra das Almas, a ciência se sustenta no cuidado compartilhado que permite que mulheres e meninas continuem a alçar novos voos.