A história de Francisco José Paiva Sousa se confunde com a própria construção do Assentamento Aragão. Francisco é um dos pilares que ajudaram a erguer o Assentamento e sua trajetória revela o que significa transformar terra em vida e vida em comunidade.
”Eu fui o segundo assentado a entrar aqui para morar.
Quando chegou ao Assentamento, localizado em Miraíma, a cerca de 191 km de Fortaleza, em 1995, havia pouco além de uma casinha e muita incerteza. O território, antes uma grande fazenda improdutiva, começava a receber famílias que apostavam na reforma agrária como caminho possível. Francisco estava entre esses indivíduos que resolveram acreditar.
Os primeiros anos exigiram esforço constante. Cercas precisaram ser levantadas, casas construídas, a terra preparada. A comida vinha do que se conseguia plantar, pescar ou criar. O coletivo não era mais escolha, mas condição para permanecer.
”A gente trabalhava até três dias seguidos para cercar, para fazer tudo.
O trabalho coletivo como base da permanência
Aos poucos, o Assentamento ganhou forma. Chegaram projetos, energia, acesso à água, equipamentos. As famílias se estabeleceram, criaram vínculos e transformaram o espaço em comunidade. Hoje, o Aragão reúne 44 famílias e se consolidou como referência para outras experiências no campo.
Francisco vivenciou cada etapa dessa transformação. Participou da organização interna, das decisões coletivas e das articulações externas. Atualmente, ocupa o cargo de vice-presidente da Associação Comunitária do Assentamento Vida Nova (Ascavin), função que exerce com presença ativa nas assembleias e na representação do grupo.
A base da organização permanece no trabalho coletivo. Todas as segundas-feiras, os moradores se reúnem para cuidar da produção comum. Os demais dias da semana são dedicados à produção própria de cada família. Isso mostra o desenvolvimento do Assentamento ao longo dos anos, ainda com foco no grupo, mas hoje com maior autonomia e autossuficiência para cada núcleo familiar.
Produção, autonomia e renda no campo
A produção do Assentamento é diversa, tendo o milho, o feijão e a criação de animais como principais fontes de subsistência. A carnaúba, palmeira nativa da Caatinga, por sua vez, se tornou fonte de renda para os moradores. Da planta se extrai o pó, que vira cera, e esta, por sua vez, serve de matéria prima, principalmente, para as indústrias automobilísticas, farmacêuticas e de cosméticos. Com o tempo, o conhecimento tradicional ganhou novas técnicas e abriu portas para melhores condições de comercialização.
Em julho de 2023, as trajetórias do Assentamento Aragão e da Associação Caatinga se cruzaram. Devido ao alto grau de organização, ao trabalho coletivo e à estrutura produtiva já estabelecida, a comunidade foi selecionada para participar do Programa Carnaúba Sustentável, que busca qualificar a cadeia produtiva da carnaúba.
A parceria com a Associação Caatinga trouxe formação, segurança no trabalho e valorização da produção carnaubeira. “A gente trabalhava com a carnaúba, mas não tinha o conhecimento que tem hoje”, afirma Francisco. O que antes era vendido sem critério passou a ter qualidade reconhecida e melhor preço. A venda direta substituiu intermediários e fortaleceu a autonomia dos trabalhadores.
Devido a essa parceria, o Aragão foi a primeira comunidade do Ceará a receber e monitorar o uso do secador solar, uma ferramenta que aumenta a qualidade produtiva da carnaúba. Essa estrutura é semelhante à de uma estufa, coberta por um material plástico branco, que utiliza o calor do sol para acelerar a secagem das palhas de forma mais protegida. Com o uso do secador, a qualidade do pó melhora significativamente e o tempo de secagem diminui quase pela metade.
Além disso, a Associação Caatinga promoveu capacitações sobre o manejo adequado da produção carnaubeira, o uso correto de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e a rastreabilidade da produção. As comunidades também participaram de eventos importantes, de âmbito regional e nacional, relacionados à sociobiodiversidade da Caatinga, levando a pauta da carnaúba. Tornaram-se, ainda, referência no uso da tecnologia do secador solar e passaram a receber visitas de atores ligados à cadeia produtiva para a apresentação dessa experiência.
Com maior conhecimento e investimento no setor da carnaúba, as mulheres do Assentamento passaram a aprimorar o trabalho com a palha, atividade tradicional já existente na comunidade. A folha da palmeira continua, dia após dia, por meio das mãos do Assentamento Aragão, a se transformar em chapéus, bolsas e tranças, mas a qualificação da atividade carnaubeira ampliou a oferta e a procura pelos artesanatos e aumentou o acesso ao mercado por parte do grupo de mulheres.
Esse avanço também impactou a vida dentro do Assentamento. Hoje, as famílias têm mais acesso a políticas públicas e contam com melhores condições para criar os filhos. “Hoje a gente vive tranquilo. As crianças estão na escola, está tudo muito melhor”, afirma Francisco, com um sorriso de quem tem a certeza de que a missão foi cumprida.
Dia Internacional de Luta dos Trabalhadores do Campo
No Dia Internacional de Luta dos Trabalhadores do Campo, celebrado em 17 de abril, a trajetória de Francisco e do Assentamento Aragão ganham ainda mais sentido, por representar a batalha diária de quem faz da terra um espaço de resistência, trabalho e dignidade.
Atualmente, Francisco, adaptou sua atuação sem se afastar da rotina da comunidade. Hoje ele é responsável por coordenar grupos de trabalho durante a safra da carnaúba e contribuir na organização das atividades.
Outro ponto central no Aragão é o cuidado com o meio ambiente. O uso de agrotóxicos não faz parte das práticas coletivas, e há um esforço constante para manter a produção alinhada com o respeito à terra.
”Aqui a gente não aceita usar veneno. Isso é uma luta nossa.
A relação com o território vai além da produção. Ela se manifesta na permanência. Muitos filhos de assentados cresceram, formaram suas próprias famílias e seguem ligados ao lugar. Francisco carrega essa continuidade dentro de casa. Criou os filhos no Assentamento e vê neles o reflexo de uma escolha que deu certo.
Para ele, a reforma agrária representa dignidade. Não apenas pelo acesso à terra, mas pela possibilidade de construir uma vida com autonomia, alimento de qualidade e sentido coletivo.
Ӄ ter liberdade de viver bem e produzir o que a gente come.
No Assentamento Aragão, essa liberdade ganhou forma ao longo dos anos, com muito trabalho coletivo e o cuidado na produção da carnaúba. E, em cada parte dessa história, está a presença de Francisco José. Um homem que ajudou a transformar um pedaço de terra em um lugar onde a vida acontece.


