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Todo dia, Seu Raimundo caminha até a floresta que cresce nos fundos de sua propriedade, na Comunidade de Filomena, zona rural de Crateús, no interior do Ceará. Não trata-se de uma simples volta pela propriedade da família. É onde ele vai quando alguma coisa pesa. A mata que hoje o acolhe, porém, é a mesma que ele próprio, décadas atrás, destruiu. São nesses momentos, caminhando entre as árvores que ele mesmo replantou, que Raimundo Soares Rodrigues resume o que a terra representa para ele hoje.

“Trabalhar pra gente é bom demais, né? Você não depender de ninguém, ter sua própria terrinha. Hoje eu vou todo dia ver como tá a floresta do meu quintal. Quando eu ‘tô’ triste, estressado ou com alguma preocupação, entro ali pra caminhar e saio da mata renovado”, explica.

Aos 68 anos, Raimundo Soares Rodrigues carrega na própria trajetória o retrato de uma relação com a terra que precisou ser reconstruída, literalmente, palmo a palmo, muda a muda.

Nascido e criado na roça

Nascido e criado na roça, Raimundo começou a trabalhar ainda menino, ao lado do pai. A relação com a terra sempre foi de trabalho e sustento, mas também de aprendizado com quem veio antes dele.

Foi aos 20 anos que Raimundo tomou uma decisão que mudaria o rumo de sua história: contrariando os conselhos do pai, desmatou boa parte dos 18 hectares de terra da família para plantar, apostando em um retorno financeiro maior. Nos primeiros anos, a aposta pareceu certa. A produção rendeu bem, mas a terra, sem a proteção da vegetação nativa, não resistiu por muito tempo.

O preço da terra sem mata

Uma enchente do rio próximo à propriedade arrasou parte do terreno da família. Sem a cobertura vegetal que antes segurava o solo, o rio mudou de curso e passou a correr bem onde antes ficavam as roças. Raimundo e o pai ficaram anos sem conseguir plantar direito, a terra simplesmente não respondia mais como antes.

Foram cerca de quatro a cinco anos difíceis, período em que Raimundo chegou a deixar o Ceará para trabalhar em obras em São Paulo, sempre voltando para tentar recomeçar na terra natal. Era uma rotina de ir e vir: trabalhava fora parte do ano e retornava para tentar, mais uma vez, tirar da roça o que precisava para viver.

O retorno à terra e o encontro com a Associação Caatinga

Foi em 2011 que a relação de Raimundo com aquela terra começou a mudar de verdade. Naquele ano, chegou à região de Crateús um projeto com um objetivo que conversava direto com a história dele: recuperar as zonas ciliares dos rios do semiárido, as faixas de vegetação que margeiam os cursos d’água e seguram o solo contra erosões e enchentes, justamente o tipo de proteção que a propriedade de Raimundo havia perdido décadas antes.

Não foi coincidência que os dois caminhos se cruzassem: a terra dele ficava bem à margem de um desses rios, e o estrago que uma enchente havia deixado ali era, de certa forma, o retrato do problema que o projeto se propunha a enfrentar.

Batizado de “No Clima da Caatinga” e realizado pela Associação Caatinga em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, o projeto trouxe apoio técnico e investimento para que Raimundo reintroduzisse espécies nativas da Caatinga, como pau branco, ipê e sabiá, além de frutíferas.

Eu nem sabia que dava para plantar um pé de pau."

Lembra Raimundo, sobre os primeiros contatos com a equipe do projeto.

O processo não foi rápido, mas foi constante. Parte da propriedade já está recuperada, e o agricultor segue ampliando a área replantada até hoje. Com a volta da vegetação, os animais silvestres começaram a reaparecer, e o acesso à água na propriedade melhorou.

Hoje, Raimundo planta principalmente milho, trabalhando a terra de um jeito mais sustentável e respeitando a biodiversidade que ele e o projeto No Clima da Caatinga ajudaram a trazer de volta. Quem visita sua propriedade não vê mais uma terra sem vida, sem árvores e com o chão rachado. Agora vê a mata em pé e o cuidado com o solo.

Tieta e o pé de dinheiro

Ao lado de Raimundo está Dona Antonieta, ou simplesmente Tieta, como é conhecida na comunidade. Casada com Seu Raimundo, ela acompanhou de perto cada etapa da recuperação da propriedade, participando das ações do projeto “No Clima da Caatinga”, cuidando da horta e do manejo da terra junto com o marido.

Na propriedade recuperada, Tieta une conservação e sustento financeiro da família. Os pés de cajá que crescem hoje na terra, antes degradada, são um bom exemplo dessa lógica: além de ajudar a proteger o solo, garantem frutos que ela consome in natura ou transforma em polpas para vender. É o que ela chama, sorrindo, de “pé de dinheiro”, prova de que recuperar a mata também pode gerar renda.

Essa geração de renda ganhou ainda mais força com o “Curso Mulheres Empreendedoras da Caatinga”, iniciativa do projeto voltada à capacitação, ao fortalecimento e ao empoderamento de mulheres que vivem em comunidades rurais do entorno da Reserva Natural Serra das Almas. A formação contou com a participação de dezenas de mulheres da região e foi realizada por meio de encontros mensais, nos quais foram debatidos temas como saúde, gênero, meio ambiente, empreendedorismo, economia popular e solidária, precificação, comercialização e estratégias de venda.

Como resultado da formação, foi realizada a “1ª Feira das Mulheres Empreendedoras No Clima da Caatinga”, organizada pelo grupo de mulheres com apoio técnico do projeto. Realizada na comunidade de Tapuio, vizinha a Filomena, a feira reuniu artesanatos, itens de decoração, cosméticos, comidas típicas e outros produtos confeccionados pelas participantes.

Dia Nacional do Agricultor

Em 28 de julho, Dia Nacional do Agricultor, a história de Seu Raimundo e dona Antonieta ganha ainda mais peso. É um relato que mostra, com honestidade, o que é possível quando alguém decide corrigir o rumo depois de um erro e entende a importância de conservar, viver e produzir na Caatinga em pé. Além disso, essa história já ultrapassou os limites de Crateús, ganhou destaque regional e nacional, incluindo uma reportagem do Globo Repórter, que levou o caso do agricultor cearense para o Brasil inteiro.

Raimundo não esconde o quanto errou nem o quanto sofreu com a decisão que tomou aos 20 anos. Mas também não esconde a gratidão pelo apoio que recebeu para reconstruir o que havia destruído. “Eu sofri. Eu derrapei tudo. Se não fosse o pessoal da Associação Caatinga que nos ajudou, eu não tinha conseguido não”, relembra Raimundo.

Se eu pudesse ser agricultor dez vezes, eu seria as dez. É um trabalho que ajuda a sustentar o país, e eu sou muito feliz fazendo isso"

Complementa, Seu Raimundo, com orgulho.

A propriedade de Seu Raimundo é hoje parte das ações de restauração ambiental do projeto “No Clima da Caatinga”, que já plantou 117.760 mudas de espécies nativas ao longo de sua trajetória. A Comunidade de Filomena, onde Raimundo mora, é uma das cerca de 40 comunidades rurais no entorno da Reserva Natural Serra das Almas que recebem apoio direto do projeto, entre os municípios de Crateús (CE) e Buriti dos Montes (PI).

No fim, a história da família de Raimundo Soares Rodrigues mostra que a terra devolve o que recebe. Ele aprendeu isso na prática, com o apoio certo, e hoje sabe que replantar uma floresta é também replantar um jeito de viver.