Há 25 anos, Kelma Nunes estava no último mês de gravidez da sua primeira filha e procurava, ao lado do pai, uma forma de tirar do papel os planos que os dois faziam para a propriedade da família: uma pequena área florestal localizada em General Sampaio, município do interior do Ceará, localizado a 128 km de Fortaleza. Foi nessa época que, folheando uma revista, descobriu o anúncio de um encontro da então Associação Nacional dos Órgãos Municipais de Meio Ambiente (Anamma), no hotel Marina Park, em Fortaleza.
A programação dos debates já estava acontecendo quando Kelma ligou para saber se ainda poderia participar do evento. Ao ouvir que as inscrições estavam encerradas, não pensou duas vezes, resolveu ir mesmo assim “na coragem, na raça e na fé”. Ao abrir a porta do auditório lotado, encontrou uma acolhida diferente da resposta que recebera pelo telefone. O “barrigão”, como ela mesma descreve, ajudou na recepção e providenciaram uma cadeira bem na frente para que ela pudesse se acomodar e acompanhar a apresentação.
Enquanto ouvia falar sobre Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), reconheceu uma possibilidade para o que ela e o pai desejavam fazer na propriedade da família, em General Sampaio. A explicação dava uma direção às conversas que os dois vinham tendo sobre conservar aquele lugar. O que ouviu, conta: “veio casar com o nosso sonho”.
Kelma foi sonhando junto com o pai, o produtor Francy Nunes, com quem se entendia quando o assunto era o futuro da terra. Os dois encontravam na natureza momentos de contemplação e de proximidade com a fé. Ele morava na propriedade e encontrava prazer naquela convivência com a natureza. Não à toa a RPPN da família recebe seu nome, como forma de homenagear uma vida que valorizava a harmonia e o cuidado com o meio ambiente.
Francy pensava em receber visitantes, organizar passeios e permitir que outras pessoas conhecessem o lugar, mas falava especialmente da vontade de preservar para as próximas gerações. Ao recordar as conversas sobre uma possível venda do terreno, Kelma reproduz o desejo que o pai repetia:
”“Eu quero que meus netos, meus bisnetos, tenham esse prazer que eu tenho aqui, de estar com a natureza”.
Fala Kelma, ao lembrar das conversas com o pai.
Acostumados a conviver com a Caatinga, pai e filha apreciavam a mata branca e sabiam que em poucos meses ela voltaria a florescer. Conheciam aquele tempo de espera e continuavam vendo valor e um símbolo de resistência no que muita gente ao redor chamava de mato velho. Para Kelma, o desejo do pai de permanecer com a propriedade estava ligado a essa intimidade com o lugar, que ela também queria manter na vida da família.
Quando estavam buscando uma forma de criar a reserva, havia dúvidas e preocupações, afinal, tudo era muito novo para uma família de “pessoas simples”, como Kelma gosta de destacar. Até que ao conhecer outras experiências e perceber a participação do poder público, viu que era um sonho possível. Aos poucos, aproximou-se de pessoas que também estavam dedicando suas terras à conservação e encontrou com quem dividir o trabalho.
A parceria com a Associação Caatinga, organização não governamental do Ceará, foi essencial no processo de tirar do papel o plano de criar a RPPN. A Associação se somou aos cuidados com os 200 hectares doados pela família Nunes à preservação e faz parte das boas memórias dessa caminhada, que Kelma recorda pela dedicação das pessoas que conheceu. “Todo mundo que passa por aí [Associação] veste a camisa”.
Em 2006, a Associação Caatinga firmou uma parceria com o Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA) para viabilizar a elaboração do plano de manejo da área, um documento que, com a participação de pesquisadores e moradores da região, ajudaria a família a orientar suas decisões sobre a reserva. Kelma fala com satisfação desse olhar que alcançou também as comunidades vizinhas e reuniu conhecimentos sobre a terra que conhecia tão de perto: “Foi uma fase muito boa, muito positiva”.
Esse envolvimento também levou Kelma a participar das articulações da Asa Branca, associação de proprietários de reservas particulares. Entre suas lembranças está a viagem a Luziânia, município do estado de Goiás, onde acompanhou o encontro de formação de uma confederação de RPPNs. Ao contar dessa participação, ela se reconhece numa história que reúne o esforço de muitas pessoas. O orgulho com que fala do que construíram vem também de ter acompanhado aquele movimento desde o início e conhecido as dificuldades que outros proprietários enfrentavam para cuidar de suas terras.
Essa disposição de trabalhar junto foi importante também nas conversas com os moradores e os gestores de General Sampaio.
“A gente entendeu que conservar não era sozinho.”
Para Kelma, a Associação Caatinga abraçou um desejo que começou dentro de casa e ajudou a compartilhá-lo com moradores do município e gestores do poder público, o que fez com que aquele cuidado com a terra pudesse reunir mais pessoas.
Com isso em mente, a propriedade esteve aberta às escolas por um tempo. Numa época que Kelma recorda com satisfação pela proximidade da reserva com a população. Ela conta que essa relação “funcionou muito bem” e chegou a organizar um concurso de fotografia para que os estudantes pudessem captar as suas visões sobre o bioma. Hoje ainda há o interesse em encontrar novas maneiras de aproximar os alunos da conservação, dando continuidade a uma relação que ela via como muito valorosa.
Depois da morte do pai, Kelma passou a dividir com a mãe e um dos irmãos as decisões sobre a propriedade. A pandemia de COVID 19 trouxe perdas e dificultou os cuidados com a área, deixando a família diante da necessidade de encontrar outras formas de mantê-la. Conservar o território também era fazer com que a história e a tradição da família se perpetuassem. Seu pai amava aquele lugar e o nascimento da sua filha se confunde com a trajetória dele.
Hoje gestora da RPPN Francy Nunes, ela procura caminhos para desenvolver as atividades que a família imaginava. Entre seus planos estão as trilhas que deseja organizar com a participação da comunidade. Kelma também se alegra com os animais que encontram refúgio ali e com a vegetação que a família ajudou a conservar. Espera que as caminhadas ajudem a sustentar a propriedade e ofereçam aos visitantes um pouco da experiência que viveu com o pai.
“A gente sempre fez isso como família”
Ao pensar em quem poderá percorrer a reserva, Kelma gostaria que outras pessoas também tivessem tempo para conhecer as plantas, observar uma flor e descobrir suas próprias afinidades com a Caatinga.
Ao recordar os anos desde aquele encontro no Marina Park, fala com orgulho da terra que conseguiram conservar e da possibilidade de os netos e bisnetos conhecerem o lugar tão querido pelo pai: “Nós somos vitoriosos”.


