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Um percurso que ajudou a criar mais de 20 áreas protegidas consolidou a conservação privada como estratégia para proteger a Caatinga

Samuel Portela é Coordenador de Conservação da Biodiversidade da Associação Caatinga e o principal responsável pelas criações de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN) no Ceará, com mais de 20 implementações no seu currículo, ao longo de 15 anos de atuação. Ele vê, por meio das unidades de conservação privadas, uma forma de cuidado com a Caatinga e, ao mesmo tempo, uma forma de transformar a relação das pessoas com a terra em um compromisso de longo prazo com a conservação.

Samuel é um explorador da natureza por vocação. Ainda na infância, passava as férias em Paracuru (CE), na casa dos avós, desbravando a mata sem pressa e com curiosidade. Ele observava a paisagem e criava intimidade com o território antes mesmo de saber que aquilo poderia se chamar “bioma”. Era apenas o quintal onde ele cresceu.

Foi nesse exercício quase intuitivo que Samuel começou a construir um olhar atento e cuidadoso, que mais tarde encontraria expressão na biologia. Ele lembra com clareza do professor que o marcou. “A forma como ele dava aulas, a forma como ele falava da Biologia me cativou”, conta. Foi um modo de apresentar o mundo vivo que fez sentido. Assim, decidiu tornar-se biólogo.

Quando fala da Caatinga, Samuel não esconde um incômodo antigo. Ele lembra dos livros escolares, das imagens repetidas e que “quando chegava na página da Caatinga, era aquela foto do solo rachado, a árvore sem folha”. Para ele, aquilo nunca foi suficiente para explicar a pluralidade do bioma. O desconforto virou motivação para conhecer mais e, consequentemente, proteger sua casa.

A graduação levou Samuel para Sobral (CE), mas foi um congresso sobre unidades de conservação, em Fortaleza, que mudou o rumo da sua atuação. Ele chegou ao evento sem saber exatamente do que se tratava, mas, ao longo dos dias, ao ouvir as palestras e circular pelos debates, percebeu que ali havia um campo inteiro que ele desconhecia e que o cativou profundamente.

“A gente só consegue proteger aquilo que conhece”

Após a graduação em biologia, o mestrado foi o espaço onde suas inquietações começaram a se organizar. Samuel escolheu estudar os conflitos entre ocupação urbana e conservação no Paracuru, unindo um território familiar, a Biologia e as comunidades locais. Não queria analisar o ambiente isolado da vida cotidiana. Queria entender como as pessoas se relacionavam com ele, onde surgiam os conflitos e o que estava em jogo quando se falava em proteger uma área.

Pouco depois, esse interesse ganhou forma prática quando um colega o apresentou às Reservas Particular do Patrimônio Natural (RPPNs) e o incentivou a participar de uma vaga de emprego na Associação Caatinga. Samuel entrou nesse trabalho com o “carro andando”, assumindo processos já em curso e aprendendo no dia a dia, em visitas de campo, conversas com proprietários e enfrentando resistências.

O que mais atraiu Samuel nas RPPNs foi o fato de tudo começar por uma escolha pessoal. O diálogo é direto, feito olho no olho com os proprietários. Diferente das unidades públicas, criadas a partir de decisões do Estado, ali a conservação nasce da vontade de quem vive no território. Ao longo do tempo, Samuel passou a reconhecer um padrão: proprietários que já cuidam da área no cotidiano, evitam a caça, controlam o acesso, preservam por convicção, mas não sabem que esse cuidado pode se transformar em uma reserva reconhecida.

Samuel aprendeu a identificar esses casos logo nas primeiras conversas. Nesses encontros, ele sabe que seu papel é mais de acolhimento do que de convencimento. É transformar um cuidado cotidiano, muitas vezes solitário, em algo protegido por lei. É um trabalho paciente, feito de escuta e explicação, que exige tempo, confiança e que dá sentido ao esforço de criar cada nova reserva.

Dentro dessa trajetória, a Associação Caatinga ocupa um papel central, sendo hoje referência no estado quando fala-se sobre unidades de conservação privadas. Para Samuel, ela representa a possibilidade de transformar a vontade de conservar em condição real de permanência. É por meio da instituição que muitas RPPNs conseguem avançar da criação para a gestão. Ela  permite elaborar planos de manejo, implementar ações previstas e, sobretudo, oferecer apoio a quem decidiu abrir mão de explorar economicamente a terra em favor de um benefício coletivo. 

Ao longo dos anos, Samuel coordenou a criação de mais de 20 RPPNs. Ele fala desses números com naturalidade. Para ele, cada processo carrega um rosto, uma conversa, uma negociação delicada, uma história única. Algumas áreas o marcaram mais, como a RPPN Não Me Deixes, criada pela escritora Raquel de Queiroz. Ele diz como “foi bom conhecer a fazenda e fazer parte do processo de dar continuidade ao sonho que foi idealizado por ela”. Ali, conservação e valorização de um patrimônio literário cearense caminharam juntas.

Ao longo dos anos, Samuel coordenou a criação de mais de 20 RPPNs. Ele fala desses números com naturalidade. Para ele, cada processo carrega um rosto, uma conversa, uma negociação delicada, uma história única.

Mesmo depois de 15 anos de trabalho, Samuel reconhece que os desafios permanecem, sobretudo o da sensibilização. Convencer alguém a deixar um legado ambiental não é simples. “Algumas pessoas ainda acham que vai doar suas terras para o Governo e perder o controle do território, a gente explica que não é nada disso e que agora a terra será ainda mais protegida, por mais leis de proteção ambiental.”, comenta o biólogo. Ele acredita que ampliar áreas protegidas é uma forma concreta de cuidar da água, do solo, da vida e das próximas gerações.

Samuel sente que seu trabalho atravessa o tempo. Não se trata apenas de criar uma reserva, mas de se inserir em uma cadeia de decisões que começou antes dele e seguirá depois. Ao caminhar por áreas protegidas, ele reconhece marcas de usos antigos, escolhas familiares, histórias que moldaram aquele território.

Nesse percurso, Samuel percebe que as RPPNS não são apenas elementos decorativos para a paisagem, elas têm uma importantíssima função social. Quando proprietários escolhem não explorar comercialmente suas terras e as dedicam apenas à preservação, esse ato expressa humildade e humanidade. É um cuidado com a terra que assegura às presentes e futuras gerações o direito de viver e usufruir de um território preservado.

No fim, o que move Samuel é a convicção de que proteger a natureza é também proteger as pessoas. Para ele, conservar é garantir condições de vida, agora e no futuro. É por isso que insiste, mesmo diante das dificuldades, em ampliar áreas protegidas e apoiar quem escolhe cuidar. Para ele, manter-se firme nesse propósito é a única forma de transformar escolhas individuais em um benefício coletivo duradouro.