Uma comitiva do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) esteve no Ceará para debater estratégias de controle da unha-do-diabo, planta exótica invasora que tem comprometido a cadeia produtiva da carnaúba no estado.
Inicialmente, os representantes do Ibama se reuniram com especialistas na sede da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec) para discutir a proposta do Plano Nacional de Prevenção, Monitoramento e Manejo da unha-do-diabo (Cryptostegia madagascariensis). A reunião contou com especialistas preocupados com o avanço acelerado da trepadeira, que já afeta diretamente os carnaubais cearenses. Nos dias seguintes, o Ibama seguiu a campo para ver a ameaça de perto.
A Associação Caatinga teve papel fundamental na articulação dessa visita técnica. A programação de ações foi planejada e acompanhada pela entidade, que contribuiu participando dos debates, das visitas a campo e na mobilização de diversos setores da cadeia produtiva da carnaúba para receber o Ibama.
O que é a unha-do-diabo?
A unha-do-diabo é uma trepadeira nativa da Ilha de Madagascar, no continente africano, que foi introduzida no Brasil como planta ornamental e se tornou uma espécie invasora com alto potencial de desequilíbrio ecológico em regiões semiáridas do Nordeste brasileiro, causando danos extremamente severos para a Caatinga e especificamente para a carnaúba.
Segundo o biólogo Samuel Portela, Coordenador de Conservação da Biodiversidade da Associação Caatinga, a unha-do-diabo assola principalmente os carnaubais porque as duas espécies têm preferência pelo mesmo tipo de ambiente alagado, com muita presença hídrica.
“É justamente essa afinidade por solos úmidos que faz a trepadeira se instalar com tanta facilidade onde a carnaúba já está estabelecida e cria as condições ideais para que ela se espalhe rapidamente e tome conta da copa da palmeira, o que faz com que a carnaúba morra sufocada e devido a falta de sol, por não conseguir realizar a fotossíntese”, afirma Portela.
A situação se agrava pelo fato da espécie rebrotar mesmo após o corte e produzir um látex tóxico, o que torna qualquer ação de manejo mais complexa e arriscada para quem trabalha no campo.
O fungo australiano
Entre as alternativas discutidas na reunião realizada na Fiec, o controle biológico ganhou atenção especial. O fungo da ferrugem (Maravalia cryptostegiae), utilizado com resultados positivos na Austrália no combate a espécies do mesmo gênero da unha-do-diabo, foi apontado como uma das saídas mais promissoras para o atual nível de infestação no estado. Para que o agente biológico possa ser pesquisado, importado e eventualmente utilizado no Brasil, é preciso avançar nos processos regulatórios, etapa que os participantes consideraram urgente.
Também entrou em pauta a possibilidade de declaração de situação de emergência fitossanitária ou ambiental, que é um instrumento técnico-administrativo legal. Na prática, essa declaração funciona como um facilitador burocrático: ela permite que órgãos públicos agilizem processos de compra, contratação e liberação de recursos que normalmente levariam mais tempo, o que torna possível agir em maior escala e com mais velocidade no combate à espécie invasora.
A ida ao campo
O Ibama também percorreu territórios diretamente afetados pela espécie invasora. O primeiro foi a Fazenda Raposa, unidade de conservação de 136 hectares localizada em Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza.
O local abriga a maior coleção de palmeiras do gênero Copernicia da América Latina, incluindo a carnaúba, símbolo oficial do Ceará e espécie endêmica do Nordeste brasileiro. A unidade, reconhecida pela importância ecológica e histórica da palmeira, também já enfrenta os danos causados pela unha-do-diabo.
No dia seguinte, os representantes do Ibama seguiram para o interior do estado, até o Assentamento Aragão, comunidade extrativista situada em Miraíma. No local, conversaram com os moradores sobre os impactos da invasora na produção local e debateram formas concretas de combatê-la. Para as famílias do assentamento, a carnaúba é parte da renda e da identidade do lugar.
Para Leôncio Borges, líder da Associação do Assentamento Aragão, “a visita do Ibama é muito produtiva para viabilizar maneiras de combater à unha-do-diabo, que tem prejudicado a nossa produção com a carnaúba”. Ele também acrescenta que medidas de combate manuais são difíceis pela “rápida capacidade da planta de crescer novamente e o ‘leite’ que ela libera e causa queimaduras na pele”.
Para Leliane Oliveira, analista ambiental do Ibama e chefe do Serviço de Assuntos Estratégicos da Flora, “a expansão da unha-do-diabo coloca em risco um modelo de produção que a instituição reconhece como sustentável sendo uma alternativa econômica durante os períodos de seca”.
Nessas ações, foram coletados relatos e observações diretas da invasão biológica, além de serem discutidos diferentes métodos de manejo e construídas articulações entre atores ambientais locais.
















