No início de julho, a equipe da Associação Caatinga esteve na região do Cariri (no sul do Ceará) para visitar unidades de conservação que vão ganhar planos de sustentabilidade financeira por meio do projeto “RPPN: Conservação Voluntária Gerando Serviços Ambientais – Fase IV”.
Acompanhada do consultor ambiental Flávio Ojidos, a equipe realizou entrevistas com os proprietários das áreas e conheceu os atrativos naturais das próprias RPPNs, além do potencial turístico, cultural e social da região. O objetivo das visitas é subsidiar a elaboração desses planos de sustentabilidade para as Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs)*, ajudando os proprietários a manterem suas reservas de forma economicamente viável, sem abrir mão da preservação ambiental.
Duas unidades de conservação serão contempladas com os planos de sustentabilidade financeira. A primeira é a RPPN Buritis Águas Naturais, que possui 10 hectares em Santana do Cariri e pertence ao casal Severino Roberto e Francisca Edna. A outra área contemplada é a RPPN Oásis Araripe, localizada no Crato, que conta com 50 hectares e é gerida pela ONG Aquasis.
*RPPNs são um modelo de unidade de conservação privada, criadas de maneira voluntária por proprietários de terra que decidem destinar parte de suas propriedades à conservação da natureza. Uma vez reconhecida pelo poder público, a reserva assume um caráter perpétuo, o que garante que a área protegida seja preservada para sempre.
Um modelo para viabilizar a conservação na prática
Responsável pela elaboração dos planos, o consultor ambiental Flávio Ojidos explica que o foco do trabalho é garantir que as reservas se mantenham ativas e viáveis.
“Estamos aqui para pensar uma forma de trazer isso para a prática, de maneira simples, ordenada, regrada, sistematizada, com planejamento, linha do tempo e ações concretas, para proporcionar a possibilidade dessas reservas atingirem um grau de ciclo contínuo de conservação”, afirma.
Segundo o consultor, a criação da RPPN por si só não resolve uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos proprietários de reservas. “O plano de manejo [documento que norteia a gestão da unidade de conservação] traz a ideia dos zoneamentos, programas de proteção, de pesquisa, de turismo, mas não responde a pergunta crucial que é: de onde vem o dinheiro para fazer essas coisas todas”, pontua.
O plano de sustentabilidade financeira consiste em mapear oportunidades de captação de recursos, identificar formas de economizar na gestão das unidades e desenhar um planejamento financeiro de médio prazo. O objetivo é buscar alternativas de receita — como Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA) e créditos de biodiversidade — capazes de cobrir os custos de manutenção das áreas.
Samuel Portela, coordenador de Conservação da Biodiversidade da Associação Caatinga, detalha que uma das principais dificuldades enfrentadas pelos proprietários surge justamente após a criação de uma reserva.
“O maior desafio pós-criação é financeiro. O proprietário assume um compromisso perpétuo de conservação e precisa arcar com despesas de cercamento, manutenção de aceiros contra incêndios florestais, vigilância, entre outros”, destaca.
Um casal cada vez mais engajado com a conservação
“É um sonho que ganha vida”, resume Edna, sobre o significado de ver a RPPN Buritis Águas Naturais protegida para sempre. Para Severino, o processo de construção do plano de sustentabilidade financeira reflete um objetivo maior do casal com a propriedade.
“Durante a conversa com a equipe da Associação Caatinga, nós falamos muito sobre sustentabilidade porque o nosso objetivo é evoluir e melhorar, conservando o meio ambiente, abrindo para a visitação pública, mas tudo com controle e regras, visando a sustentabilidade financeira e ambiental, porque somente essa sustentabilidade é que vai garantir o futuro de toda essa área”, afirma.
Samuel também relembra como começou a relação da Associação Caatinga com Severino e Edna, hoje um dos exemplos mais expressivos de engajamento com a conservação voluntária na região. “No começo, o seu Severino era mais receoso com o tamanho da área e a dona Edna era mais empolgada. Mas, depois que criaram a primeira RPPN, o casal se empolgou de vez!”, conta.
O casal também está envolvido na criação de novas RPPNs, além das que já mantêm. “Hoje eles já estão indo para a quarta RPPN: criaram duas e estão em processo de criação de mais duas. É um casal super engajado que adquire propriedades para torná-las 100% protegidas, dando uma contribuição fantástica para a conservação da Caatinga”, diz Samuel.
Atualmente, o casal mantém a RPPN Buritis Águas Naturais, primeira unidade criada na propriedade, e a RPPN Azedos, estabelecida após a aquisição de uma área vizinha. Agora, por meio deste projeto, eles trabalham na criação da RPPN Melina Garcia, batizada em homenagem à primeira neta do casal. Além disso, motivados pelo mesmo propósito, Severino e Edna também têm o interesse de criar uma outra unidade: a RPPN Sítio Azedos II. Com o conjunto dessas quatro RPPNs, o casal consolida um mosaico de áreas protegidas que reforça a conservação da Caatinga e a conectividade entre os fragmentos de vegetação nativa.
A ação integra a quarta fase do projeto RPPN
A visita ao Cariri e a construção dos planos de sustentabilidade financeira fazem parte da quarta fase do projeto “RPPN: Conservação Voluntária Gerando Serviços Ambientais”, que tem como objetivo geral contribuir para a ampliação e o fortalecimento da conservação no bioma Caatinga, no Ceará, por meio do apoio à criação e ao fortalecimento da gestão de Reservas Particulares do Patrimônio Natural.
Além da elaboração dos dois Planos de Sustentabilidade Financeira, a quarta fase do projeto prevê:
- a criação de 2 novas RPPNs no estado do Ceará;
- a ampliação de 4 RPPNs já existentes;
- a elaboração de um Plano de Comunicação, com foco na sensibilização da sociedade sobre a importância das RPPNs como ferramenta de conservação.
As ações têm duração prevista de 15 meses e estão concentradas nos municípios de Crateús, Crato, Santana do Cariri e Araripe. Entre as novas unidades a serem criadas estão o Sítio Chapada da Torre, em Araripe, com 21,02 hectares, e a RPPN Melina Garcia, em Santana do Cariri, com 13,68 hectares.
Já entre as reservas em processo de ampliação estão a RPPN Buritis Águas Naturais, que deve passar de 10 para 27,71 hectares, a RPPN Oásis Araripe, localizada na cidade do Crato, que deve saltar de 50 para 56 hectares, a RPPN Neném Barros, em Crateús, que deve quase dobrar de tamanho, e a RPPN Serra das Almas, também em Crateús, que terá a formalização de uma ampliação de 440 hectares ocorrida em 2018.
Realização
O Projeto RPPN: Conservação Voluntária Gerando Serviços Ambientais é realizado pela Associação Caatinga e financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) — Global Environment Facility — no âmbito do Projeto Estratégias de Conservação, Restauração e Manejo para a Biodiversidade da Caatinga, Pampa e Pantanal (GEF Terrestre), coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como agência implementadora e o FUNBIO — Fundo Brasileiro para a Biodiversidade — como agência executora.
















