Papo Caatingueiro: Iaponan Cardins explica o lado “oculto” da desertificação

Iaponan Cardins: “A forma de redução dos custos sempre aconteceu por meio da extração dos recursos naturais em uma intensidade muito maior do que a capacidade de regeneração dos ambientes.”

Em alusão ao Dia Mundial de Combate à Desertificação, 17, a Associação Caatinga convidou Iaponan Cardins, professor do curso de Geografia da Universidade de Pernambuco, para falar um pouco sobre o que é e como podemos superar a desertificação. O pesquisador mostra os aspectos socioeconômicos da degradação da natureza, que vão além das questões ambientais.

 

 

Associação Caatinga | A gente sempre escuta falar sobre o tema, mas em palavras mais simples, o que é desertificação?

Iaponan Cardins | Ainda há muita confusão quanto ao entendimento do conteúdo atribuído à palavra desertificação. Podemos dizer que o termo não expressa exatamente o que aparenta. O essencial é que, aquilo que hoje chamamos de desertificação se refere à degradação ambiental, ou seja, os danos provocados ao meio ambiente pelo uso da terra, especificamente em climas secos. A adoção da palavra desertificação para especificar a degradação das zonas secas é justificada por muitos especialistas pelo aspecto visual das paisagens gravemente afetadas. Elas podem ser descaracterizadas ao ponto de se parecerem com os desertos, tais como o deserto do Saara, do Kalahari, do Arizona, dentre outros. Ou seja, nesse contexto específico, desertificação não significa a transformação de um ambiente em um deserto. Desse ponto de partida se desdobram muitos outros problemas e uma diversidade de análises, bem como, propostas de solução.

 

AC | Quais as principais causas da desertificação?

IC | O que provoca qualquer tipo de degradação é a dinâmica socioeconômica ao longo do processo histórico. No nosso contexto, as causas estão atreladas ao funcionamento da economia em sua lógica de ampliação de lucros e minimização de custos. É a mesma lógica que põe em movimento a extração de matérias primas para atendimento das demandas sociais. O semiárido brasileiro foi submetido a vários ciclos econômicos, nos quais foram praticadas produções predatórias. Ou seja, a forma de redução dos custos sempre aconteceu por meio da extração dos recursos naturais em uma intensidade muito maior do que a capacidade de regeneração dos ambientes. Sempre foi mais barato e mais rápido um desmatamento ostensivo, queimadas, uso intensivo do solo e rebanhos numerosos, do que formas de produção mais cuidadosas. Essa lógica atravessou todo o período colonial e ainda está presente de norte a sul do Brasil, como vemos no nosso Semiárido, mas com muita agressividade na Amazônia atualmente. Em síntese, o que causa a degradação é a lógica de exploração da natureza exercida nos últimos 400 anos. Já se passou muito tempo, os problemas se acumularam e estamos atrasados nas ações de recuperação.

 

“No nosso contexto, as causas estão atreladas ao funcionamento da economia em sua lógica de ampliação de lucros e minimização de custos.”

 

AC | E quais áreas do Brasil têm mais chances de virarem um deserto?

IC | Originalmente, a palavra deserto se refere a vazio demográfico. Na Caatinga temos algo em torno de 22 milhões de habitantes em uma área de aproximadamente 900 mil Km2. É o Semiárido mais populoso do mundo. Qualquer ambiente pode se tornar intensamente degradado quando submetido à lógica de acumulação que move a nossa sociedade. Contudo, há vários estudos que identificaram as zonas mais afetadas do Semiárido brasileiro, muito embora seja possível encontrar áreas intensamente degradadas fora desses núcleos. Hoje, são consideradas as situações mais graves, aquelas encontradas nos municípios dos Sertões do Centro-Norte, Inhamuns e médio Jaguaribe, no Ceará; Seridó do Rio Grande do Norte; Cariri e Seridó, na Paraíba; Sertão de Cabrobó, em Pernambuco; algumas áreas de Gilbués, no Piauí; e o Norte da Bahia, nos municípios de Xorroxó e Abaré. Essas são as zonas de maior concentração de áreas degradadas, também conhecidas como “núcleos de desertificação”. Ou melhor, núcleos de degradação ambiental. É importante lembrar que a mesma dinâmica de uso da terra é responsável pela ocorrência do problema em todo o Semiárido brasileiro, em maior ou menor abrangência. 

 

AC | Pode explicar quais as etapas do processo que transforma uma terra fértil em uma área desertificada?

IC | É necessário ter clareza de que a degradação ambiental se constitui como um processo histórico, necessariamente.  Neste sentido, devemos compreender que há etapas conduzidas pelos ciclos econômicos, desde os grandes latifúndios do período colonial até a nossa história recente. A depender da exploração das diferentes regiões, houve épocas de expansão da pecuária extensiva, monocultura do algodão, cisal, palma forrageira, lavouras de subsistência, e tudo precedido pelo desmatamento e queimadas da Caatinga. Então há etapas históricas que particularizam a degradação de cada região. Do ponto de vista ambiental, as etapas iniciam com desmatamento, queimadas e uso da terra em que os solos permaneçam expostos à forte intensidade das chuvas torrenciais, tão comuns nessas latitudes. São necessários milhares de anos para que seja formado um centímetro de solo, mas uma sequência de anos chuvosos pode provocar a remoção de muitos centímetros da parte mais rica deles, que é o que está na superfície. Na medida em que o solo vai se deteriorando, tendo como causador o uso, e não a chuva, a vegetação encontra maior dificuldade de se estabelecer em um solo endurecido e sem capacidade de retenção das sementes transportadas pelo escoamento da água ou por outros mecanismos. Muitas vezes ela até consegue se recuperar, mas é comum a adoção de novas medidas de desmatamento e queimadas. O estágio mais grave ocorre quando o solo é completamente removido pelos processos erosivos e o que resta é o último horizonte do solo ou mesmo a rocha, da qual ele foi originado. Os solos se desenvolvem na presença de água retida, que decompõem as rochas. Ou seja, por causa do curto período de chuvas, eles se desenvolvem mais lentamente no semiárido, podendo ser completamente destruídos pela erosão. Este é um prejuízo altíssimo.

 

“Do ponto de vista ambiental, as etapas iniciam com desmatamento, queimadas e uso da terra em que os solos permaneçam expostos à forte intensidade das chuvas torrenciais, tão comuns nessas latitudes.”

 

AC | A partir de que ponto o processo de desertificação torna-se irreversível?

IC | Eu defendo a ideia de que a degradação não é irreversível. E muitos estudos têm demonstrado sucesso na recuperação de áreas muito prejudicadas neste sentido. Penso que se este fosse um problema irreversível, não faria sentido tanto esforço de investigação, propostas de recuperação e políticas públicas específicas. Irreversibilidade, me parece, um termo que busca ressaltar a gravidade do problema, mas não corresponde à realidade. Áreas extremamente degradadas não são estáticas, mas extremamente dinâmicas. É possível verificar alguma dinâmica de regeneração, mas os processos erosivos costumam ser mais acelerados e impedem uma rápida recuperação espontânea. O tempo necessário para que as plantas recolonizem áreas muito degradadas é muito maior do que o necessário para evitar uma erosão severa. A boa notícia é que os resultados são excelentes quando são adotadas medidas simples de contenção de solo.

 

AC | Quais as consequências da desertificação para a população rural que vive na área afetada e trabalha com agricultura?

IC | A produção agrícola depende, basicamente, da produção vegetal. Seja para alimentação dos rebanhos, seja para a produção de grãos ou hortaliças. O trabalho gira em torno de aproveitar o que as plantas produzem.  Para isso, é necessário solo e água. Perdendo o solo, também se perde água, portanto, a capacidade de produção de pasto e de produção das lavouras. Em geral, os produtores herdam e repassam o problema para as gerações seguintes. Menor capacidade produtiva implica em prejuízos econômicos.

 

“A boa notícia é que os resultados são excelentes quando são adotadas medidas simples de contenção de solo.”

 

AC | Qual o impacto da desertificação e da restauração para a fauna da caatinga?

IC | Em longo prazo, a degradação diminui drasticamente a capacidade de desenvolvimento das plantas e faz desaparecer aquelas espécies mais exigentes da qualidade ambiental. Quando ocorre a redução da quantidade de plantas e de espécies, os animais também são prejudicados. A oferta de alimento diminui de forma sequencial, fazendo com que a quantidade de animais e de sua diversidade de espécies também seja comprometida pela redução na disponibilidade de recursos naturais. O comprometimento ambiental se reflete de forma interligada, em que, os danos atingem tanto os componentes estruturais, quanto os organismos que dependem deles para viver e se reproduzir. 

 

AC | E o que pode ser feito para frear os processos de desertificação?

IC | Se o problema é ocasionado pela lógica que move a nossa sociedade, o primeiro passo deve ser na transformação dessa lógica em outra, que se reflita em ações concretas. Não adianta implementar ações com base na mesma mentalidade que gerou o problema. Se, por meio do trabalho a sociedade degrada o ambiente, do qual depende, somente por meio de muito trabalho é possível prevenir e corrigir os erros. É fundamental abandonar o uso do fogo no preparo da terra; o uso da lenha deve ser seletivo e não remover por completo as plantas, permitindo a rebrota; a criação de animais precisa respeitar o ciclo sazonal da caatinga; as áreas de cultivo devem ser utilizadas com técnicas de contenção do solo, especialmente com curvas de nível, adubação orgânica e plantio direto; as áreas degradadas devem ser recuperadas, pelo menos com contenções de linhas de pedras ou camalhões; e o uso de arados deve obedecer a rígidas medidas de contenção da erosão laminar. É comum que os produtores cuidem da proteção de suas terras com cercas, mas nem sempre eles percebem a perda que sofrem por deixar o solo desprotegido. Cuidam da propriedade, mas negligenciam no cuidado do bem. Protegem a terra, mas descuidam do solo.

 

“Se o problema é ocasionado pela lógica que move a nossa sociedade, o primeiro passo deve ser na transformação dessa lógica em outra.”

 

AC | As pessoas que vivem nas zonas urbanas têm alguma responsabilidade com os processos de desertificação? Elas podem tomar alguma atitude?

IC | Nós somos parte do gênero humano. Como tal, recai sobre nós o compromisso ético de nos preocupar com as grandes questões do nosso gênero. Ninguém vive isoladamente e precisamos dos produtores rurais, muito mais do que conseguimos lembrar no dia-a-dia. A responsabilidade com o tipo de sociedade que construímos inclui uma reflexão profunda sobre o nosso ser e estar no mundo, a forma como nos relacionamos uns com os outros e a forma de organização coletiva, que produz ações concretas. Eu acredito que existem formas, com as quais as populações urbanas podem contribuir com a conservação ambiental. Sugiro um esforço na mudança dos padrões e hábitos de consumo gerais, mas também a valorização dos produtos agroecológicos. É possível encontrar centros de abastecimento, onde se comercializa uma produção de trabalhadores comprometidos com essa questão ética tão fundamental. As feiras agroecológicas e da agricultura familiar, em regra, são organizações de resistência e transformação de várias heranças injustas que recebemos do passado. Por fim, o conhecimento. Em uma época em que surgem discursos falsos e de anti-ciência, é fundamental realizarmos mais esforços para o domínio de conhecimentos amplos e profundos. Disso depende a superação da degradação e uma perspectiva conservacionista.