Hugo Fernandes: “ A história vai dizer o quão bonito foi a coletividade brasileira baseada em ciência que vai tirar a gente dessa situação”

Hugo Fernandes: “a história vai dizer o quão bonito foi a coletividade brasileira baseada em ciência que vai tirar a gente dessa situação”

Para finalizar a série de entrevistas do Papo Caatingueiro sobre o coronavírus, a Associação Caatinga conversou com o professor doutor Hugo Fernandes Ferreira. Em uma entrevista feita por telefone, na terça-feira (31), o profissional sai um pouco das questões ambientais para discutir sobre as consequências desta pandemia na rotina dos brasileiros.

 

 

ASSOCIAÇÃO CAATINGA| O primeiro caso de coronavírus aconteceu há quase três meses. Desde então, quais lições foram aprendidas por nós como humanidade?

HUGO FERNANDES| Número um: acredite e confie na ciência e baseie as ações políticas a partir dela. Quando a gente não escuta cientistas é esse tipo de coisa que acaba acontecendo e acho que o coronavírus dá uma lição a todos nós. Por quê? Porque os reservatórios de SARS-COV em morcegos silvestres já haviam sido apontados desde 2007, em 2015 um novo alerta, em 2018 um novo alerta e no fim de 2019 aconteceu o que aconteceu.

 

AC| Por que alguns países, como a Alemanha e o Japão, conseguem conter de forma satisfatória os danos do vírus enquanto outros países sofrem com alta taxa de disseminação e de mortalidade?

HF| Primeiro, obviamente, questão de estrutura, são países mais bem estruturados. Mas lá a receita que eles seguiram foi: testar o maior número de pessoas possível, isso dá uma noção muito mais exata do tamanho do problema e óbvio; consegue-se identificar as pessoas que precisam ser isoladas rapidamente, ao contrário do Brasil e outros países que só testam quem está no hospital, então isso mexe muito com os dados que ficam completamente defasados e também nós temos aí uma imensidão de pessoas infectadas que continuam infectando outra pessoas porque nem sequer sabem que estão com o coronavírus ou o Estado não sabe. Então começa por aí. Em segundo lugar vem a quarentena, a quarentena mais restrita possível. Manter todo mundo dentro de casa, à exceção dos serviços essenciais de abastecimento, logística e transporte. Se assim não for… caso as pessoas optem por um isolamento vertical, de isolar apenas os idosos e colocar todo mundo na rua, a gente vai ter um problema muito sério. Se a gente for desconsiderar o potencial dessa crise, a gente vai ter um problema maior ainda, estaremos no mesmo caminho de Itália e Espanha que hoje assistem, infelizmente, mil mortes por dia.

 

Acredite e confie na ciência e baseie as ações políticas a partir dela”.

 

AC| O coronavírus atinge todas as camadas sociais da mesma forma ou há alguma diferença entre as classes?

HF| O coronavírus não escolhe camada social, tanto é que ele entrou no Brasil através das classes mais altas que vieram do exterior e ele tem um potencial letal independente da pessoa ser rica ou pobre. O porém é que as taxas de contágio potencialmente aumentarão em áreas onde há grandes conglomerados urbanos, pessoas morando em ambientes conjuntos e esse ambientes são bem característicos das nossas favelas. Então nós teremos um problema que assola com mais força, sem dúvida nenhuma,  as classes menos abastadas socioeconomicamente falando e também pelo motivo de que os prejuízos econômicos são mais sentidos por essas pessoas porque a gente está falando de trabalhadores autônomos que trabalham na informalidade e que não têm nenhum tipo de reserva e estão em locais que não possuem saneamento básico. A gente fala em lavar a mão, por exemplo, essas pessoas, às vezes, não têm nem essa condição.

 

AC| Como podemos impedir que o coronavírus chegue às comunidades rurais do interior do país? E o que acontecerá se o vírus chegar até lá?

HF| Quarentena, que é como indicam os estudos científicos e os países que estão acertando. Então quanto mais a gente se manter em quarentena, independente de ser capital ou interior, a gente vai conseguir barrar esse vírus. Tem que manter a quarentena, a mais rígida possível. Se o município tiver condições, testar o maior número de pessoas possível, isolar as pessoas que são suspeitas e ter um extremo cuidado com a população mais idosa. Também é importante educar a população para que se mantenha a higiene muito bem conduzida, muito bem mantida. Lavar bem as mãos, se tiver álcool em gel melhor, se não tiver, lavar a mão a todo momento e evitar sair de casa.

 

“Então quanto mais a gente se manter em quarentena, independente de ser capital ou interior, a gente vai conseguir barrar esse vírus.”

 

 

AC| E o sistema de saúde brasileiro está preparado para enfrentar o coronavírus?

HF| O sistema de saúde brasileiro, muito embora merece elogios em diversos pontos,mas, infelizmente, não está preparado para o coronavírus, pelo menos não nas taxas que o coronavírus promete chegar no Brasil. A gente está começando a assistir essa curva aumentando e nós temos algo em torno de 30 a 40 mil leitos de UTI (Unidade de Tratamento Intensivo), mas com uma taxa de ocupação de 90 a 95%. Sem dúvida vamos encarar um problema muito sério, a gente não vai ter leito para todo mundo, nem respirador para todo mundo. Estamos falando de uma situação onde cada paciente entra na UTI, que é 5% da mostra, fica 20 dias entubado, só que aí no outro dia chegam mais cinco pacientes para ficar mais 20 dias entubados e aí no terceiro dia chegam mais seis pacientes. Então infelizmente nosso sistema de saúde não comporta isso. Mas existem várias iniciativas tentando suprir esse problema. Estão comprando respiradores, adaptando respiradores para poder ver se dá conta e acho que é o nosso senso de coletividade que vai fazer com que tenhamos uma diminuição do número de contágio e também do número de mortos.

 

AC| Mas qual a diferença entre conscientizar e induzir ao pânico?

HF| A gente precisa ter uma comunicação muito branda. Temos que saber comunicar nessa hora para alertar que as pessoas não podem ser negligentes, mas também não entrar em pânico. É o que eu falei, se houver um sentimento de coletividade, a gente já abaixa essa curva e diminui o número de mortes sem dúvida. Mas não podemos confundir isso com negligência, a gente tem que agir. É realmente muito complicado. Então isso exige um treinamento de comunicação para que isso não se torne um pânico. Precisamos alertar as pessoas. Olha, se a gente ficar indo para a rua, ficar fazendo carreata, passeata, lotando estádio e igreja, infelizmente, podemos sim ter centenas de milhares de mortes. Se quisermos que isso não aconteça, porque aí sim o pânico será instaurado,  precisamos agir.

 

AC| Quando passar, que lições essa pandemia deve deixar para o Brasil?

HF| Acredite na ciência. A história vai dizer o quão bonito foi a coletividade brasileira baseada em ciência que vai tirar a gente dessa situação da forma mais preventiva possível, mas para isso a gente precisa da colaboração de todo mundo.