Um bom filho a casa torna: ararinhas-azuis voltam para a caatinga após 20 anos

Um bom filho a casa torna: Ararinhas-azuis voltam para a Caatinga após 20 anos. 

A última ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) desapareceu da natureza em outubro de 2000. Desde então, pesquisadores e organizações internacionais desenvolvem esforços para devolver esta ave ao seu habitat natural. E o dia três de março foi um marco dessa luta: após duas décadas, 52 ararinhas-azuis retornaram para a caatinga.

Ao total, 28 fêmeas e 24 machos que estavam na Alemanha desembarcaram às 13h no Aeroporto Senador Nilo Coelho em Petrolina, Pernambuco. Após o pouso, as espécimes seguiram para o Centro de Reprodução e Reintrodução das Ararinhas-Azuis em Curaçá, Bahia. O imóvel possui 2.400 m² equipados com dois viveiros, laboratório, alojamento e escritório. As aves permanecerão no Centro até 2021, data da primeira soltura. Durante esse tempo, os animais passarão por técnicas de adaptação e treinamento para viverem na natureza.

As ararinhas-azuis serão reincorporadas em duas Unidades de Conservação, o Refúgio de Vida Silvestre da Ararinha-Azul (29,2 mil hectares) e a Área de Proteção Ambiental da Ararinha-Azul (90,6 mil hectares). Ambas as áreas foram criadas em junho de 2018 com o propósito de abrigar as espécies.

O projeto de repatriação das ararinhas-azuis é uma ação desenvolvida pela associação alemã ACTP (Association for the Conservation of Threatend Parrots) em parceria com o ICMBIO (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).

Breve histórico sobre a ararinha-azul

1819. A espécie é catalogada e capturada pelo alemão Johann Baptist von Spix (1781-1826) em Juazeiro, Bahia. O naturalista viaja ao Brasil para descrever a fauna e flora do “novo mundo”. Ao final da expedição, Spix volta para a Europa com cerca de 9.000 espécies de plantas e animais. O nome científico da ararinha-azul é escolhido em sua homenagem.

1832. O herpetólogo alemão Johann Georg, assistente do naturalista Spix, escreve o livro Monographia Psittacorum, onde a ararinha-azul é descrita. O nome científico da ave é escolhido em homenagem ao seu chefe, já falecido. Cyanopsitta spixii significa “ararinha-azul-de-Spix”.

1986. A área de ocorrência da espécie é desconhecida, mas isso muda quando Paul Roth encontra as três últimas ararinhas-azuis em riachos de Curaçá.

1990. A última ararinha-azul remanescente na natureza é encontrada por Carlos Yamashita e Tony Juniper, trata-se de um macho. Inicia-se um projeto para localizar outros indivíduos e reintroduzir a espécie em seu habitat natural através da reintrodução dos exemplares mantidos em cativeiro. O IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) cria o Comitê Permanente para a Recuperação da Ararinha-Azul.

1995. Cientistas reintroduzem na natureza uma fêmea de ararinha-azul criada em cativeiro com o intuito de propiciar o acasalamento entre a espécime e o último macho selvagem. Mas, após um mês, a fêmea desaparece. Quatro anos depois, um morador da região de Caruçá afirma a ter encontrado falecida sob uma linha de alta tensão. A equipe de campo vasculha o local indicado, mas não encontra vestígios.

1999. O jornalista Francisco Pontual lança “O Sobrevivente Solitário”, um documentário sobre a última ararinha-azul selvagem.

2000. A última ararinha-azul selvagem, encontrada em 1990, morre e a espécie é considerada extinta da natureza.

2011. O cineasta Carlos Saldanha dirige a animação “Rio”. O filme conta a história de Blu, uma ararinha-azul macho que é levada ao Rio de Janeiro para acasalar com uma fêmea

2016. No dia 18 de junho, moradores de Caruça gravam uma ararinha-azul solta na natureza. Após o registro, pesquisadores realizam patrulhas em busca da ave, mas a espécime não é encontrada. Acredita-se que o exemplar fugiu ou foi solto de algum cativeiro ilegal da região.

2019. Não resta nenhuma ararinha-azul na natureza, mas existem 166 espécimes em cativeiro. Treze no Brasil, 147 na Alemanha, quatro na Bélgica e dois em Cingapura.

Causas da extinção

A caça, o comércio ilegal e o desmatamento foram as principais causas para a extinção das ararinhas-azuis. Dependente das matas às margens do Rio São Francisco, essa aves viram, pouco a pouco, seu habitat natural ser destruído para dar lugar à pastagens de gado. Já no século 17, colonos europeus começavam o processo de conversão da floresta em área agrícola. Hipóteses apontam que a construção da barragem de Sobradinho, iniciada em 1971, também agravou a já precária situação do animal. 

Aliada ao desmatamento e às mudanças geográficas, a caça foi um fator decisivo para a extinção da ararinha-azul. A beleza da ave chamava, e ainda chama, a atenção de traficantes internacionais. Desde a década de 1920 existem relatos da captura ilegal da ave. 

Características 

A ararinha-azul mede, em média, 57 centímetros de comprimento e possui penas azuis com tons claros ao longo do corpo. Sua dieta em natureza consistia principalmente em sementes de faveleira e pinhão-bravo. A época reprodutiva estava associada ao período chuvoso da Caatinga. Já a nidificação (construção do ninho) era realizada em ocos e buracos de árvores, principalmente de caraibeiras (Tabebuia aurea), espécie de planta que há séculos era abundante nas matas ciliares do Rio São Francisco.